Tezuka Day - Dororo, ninguém nasce completo

Shigeru Mizuki, autor do consagrado Gegege no Kitaro, conseguiu emplacar o movimento do sobrenatural nos mangás Shounen. Sua obra, publicada inicialmente na Shounen Magazine, influenciou vários outros mangás posteriores no estilo, e Dororo, obra a ser abordada no post, é um deles.

Dororo, de Osamu Tezuka, o Deus do Mangá, é um mangá de aventura, com toques de ação e de sobrenatural. Mas não se deixe enganar: Dororo é definitivamente um mangá feito para o público juvenil. Mais importante que as lutas contra monstros horripilantes e uma atmosfera sombria, é o tema de amizade e perseverança perante um objetivo. Inclusive, foi publicado na Shounen Sunday, uma das três maiores antologias de mangás do gênero, entre 1967 e 1968.


“Ninguém nasce completo” é a chamada do mangá, e é um tema recorrente durante toda a obra. A história conta sobre Hyakkimaru, filho de Daigo Kagemitsu, um Daimyô que quer dominar o mundo. Para tal, faz um pacto com 48 demônios, e acaba oferecendo seu próprio filho, que a propósito, nem nasceu ainda. Fica combinado então que será dada uma parte do menino a cada um dos demônios. Assim, Hyakkimaru nasce completamente disforme, e é abandonado pelos pais, que o largam dentro de uma cesta. E, para a história poder continuar, alguém acha o bebê no cesto e decide cuidar dele.

Coincidentemente, o homem a achar Hyakkimaru é um médico e artesão, e fica assustado com o que vê dentro do cesto, já que aquilo não parecia ser um ser humano, não parecia ser sequer um ser vivo. Não tinha orelhas, nariz, braços, pernas e nem boca. O médico dá o que comer (por meio do orifício onde deveria ser a boca) para aquele ser poder sobreviver, e assim continua a cuidar de seu novo “filho”. Um dia, o bebê fala que quer comida, e seu pai adotivo se assusta – aliás, ele não tinha boca! Mas acontece que ele conseguia falar telepaticamente, pois por não possuir várias partes do corpo, isso acabou lhe concedendo poderes extra-sensoriais. Animado por uma reação daquilo que não parecia ser humano, o pai resolve se esforçar e constrói as partes que faltam ao seu filho, para ele poder parecer uma pessoa normal. E, para proteção, temos espadas, pólvora e até aguardente escondidos nas próteses de Hyakkimaru.

Com o decorrer dos dias, demônios aparecem para atormentar a vida do pai e do filho, procurando obter o corpo de Hyakkimaru. Este descobre que, parece poder recuperar suas partes do corpo e seus sentidos, terá que derrotar os 48 demônios com os quais o pacto do pai biológico foi feito. Assim, nosso personagem principal parte em jornada para caçar demônios. Mas personagem principal? E o tal de Dororo que dá nome ao título?

Numa de suas primeiras jornadas, Hyakkimaru encontra um pequeno menino ladrão, Dororo (cujo nome é literalmente isso: “pequeno ladrão”), que, ao ver o herói lutar, passa a querer roubar sua espada. Sempre calmo, porém, Hyakkimaru não se incomoda e deixa Dororo andar a seu lado, pois sabe que o garoto não irá roubar a espada, já que esta é acoplada a seu corpo. Assim, os dois acabam construindo uma amizade que se torna verdadeira, protegendo-se uns aos outros na guerra contra os demônios.

Episódico, Dororo é dividido em 19 capítulos nos quais passa por uma aventura em cada. E isso é um pró pro mangá, uma vez que a história dessa forma se tornou mais despretensiosa e agradável de se ler. Dororo teve sua história encerrada para que Tezuka se dedicasse à publicação de seu próximo mangá, Prince Norman, mas isso não acarretou em um final aberto, como muitos pensam. A história fechou muito bem, a ponto de não deixar nenhum fã desapontado.


O grande destaque de Dororo foi o universo explorado por Tezuka, que possibilitou críticas à guerra, ao abuso de poder das autoridades e à desigualdade entre ricos e pobres. Apesar de ser uma obra de fantasia, o mangá é ambientando no Japão feudal, durante o Período Sengoku (1467-1573), uma era bastante conturbada para o país, onde os samurais tinham bastante poder. Inclusive a família do Dororo foi atacada por samurais e sofria com os males da época, dando uma carga dramática ao mangá (apesar disso, o clichê de vingança não é presente).

No volume 2, aparece um muro que divide duas partes da cidade, sendo uma clara representação do Panmujon, a cidade que marca a divisa entre a Coreia do Sul com a do Norte. Dororo sabe misturar muito bem críticas à guerra e seus efeitos e uma épica aventura contra demônios, o que o tornou um divertidíssimo mangá. Não é um genial Adolf, nem um épico Buda, mas é uma leitura que se mostra prazerosa, chegando a te deixar esquecer as horas passarem ao lê-lo.


O traço é bonito e está longe de ser datado, o enquadramento e as disposições dos quadros são incríveis em algumas partes da história (lembrando o, nesse aspecto, ótimo Metrópolis) e os monstros são criativos, tendo um ar próprio mesmo tendo sido muitas vezes inspirados em monstros da mitologia japonesa. Na imagem ao lado, pode-se ver, por exemplo, um desses monstros, a raposa de nove caudas, a Kyuubi, ser do imaginário japonês (já popularizada no ocidente devido a Naruto), assim como o muro citado no parágrafo anterior.

O problema foram algumas cenas de drama, que perderam parte da emoção devido à rápida narrativa e ao tipo de história. Afinal, não podemos esquecer que Dororo se destina a um público mais jovem. Para alguns, o fato de Hyakkimaru conseguir se mexer perfeitamente com suas partes do corpo (e até demais, tendo em vista que ele as retira para utilizar como arma) pode incomodar, mas lembrem-se que, mesmo abordando temas sérios, Dororo é, acima de tudo, uma obra de fantasia, e, como já dito, destinado a adolescentes – e estes só querem diversão. O que vem a mais é lucro.

Mesmo sendo curto, o mangá desenvolve muito bem seus personagens. Dororo e Hyakkimaru, com o decorrer da história, mostram seus passados, suas fraquezas e juntos superam isso, sendo passada uma bela mensagem de amizade e de que, com coragem e persistência, tudo é alcançável. Dororo é isso, um mangá atemporal que consegue apresentar diversas críticas e passar diferentes mensagens sem deixar de ser uma boa obra de lutas contra demônios.

Dororo pode não ser uma das obras mais conhecidas e influentes do mestre Tezuka, mas mesmo assim obteve uma versão animada de 26 episódios (que teve um final diferente) e um recente filme em Live-Action (de 2007), assim como jogos de videogame para o Playstation 2. Ou seja, material é o que não falta e não se deve perder a chance de ler uma obra tão divertida, ainda mais se considerar que o mangá é pequeno e é licenciado no Brasil. Corram atrás da obra mais pop de Tezuka, a diversão é garantida!

A VERSÃO BRASILEIRA

No Brasil, o mangá foi lançado pela Editora NewPop e está até o momento no volume 3. O acabamento é bem satisfatório para o preço, e a tradução e revisão da primeira edição parecia ter tudo em ordem, mas os dois volumes seguintes tiveram erros, como de crase e pontuação, que poderiam ser evitados com uma revisão de qualidade. Além disso, o segundo volume veio com um material de capa com qualidade inferior, em um tom acizentado que prejudicou a arte da capa. Felizmente, o terceiro volume estava melhor. Cabe lembrar que a última edição do mangá sai em janeiro aqui no Brasil.

FICHA TÉCNICA

DORORO

  • Autor: Osamu Tezuka
  • Data de publicação original: 1967~1968
  • Publicado originalmente em: Weekly Shounen Sunday
  • Publicado no Japão por: Shogakukan; 4 volumes
  • Publicado no Brasil por: Editora NewPOP; 3 volumes (em andamento)
  • Formato: 15x21 cm
  • Valor: R$24,90
  • Páginas: 216
[Post feito com a colaboração de @lmalafaia]

7 comentários:

  1. Oi, vi seu comentário lá no Mangás da Panini e eu vim correr atrás de quem havia escrito um comentário tão sensato /stalker q. Eu realmente fiquei entusiasmada com o fato de você morar em Brasília, eu também moro no quadradinho e não ter amigos 3D é uma lamentação constante na minha vida. Eu realmente não conhecia a obra do mestre Tezuka. Para falar a verdade, a banca perto daqui de casa não investe nesse tipo de mangá. Pelo visto, estou perdendo uma puta estória, não é mesmo?

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  2. Excelente análise sobre a série em si e como ela foi abordada. Acho Dororo inovador na época por ser Drama, Horror, Fantasia e principalmente Jovem.
    Parabéns e espero mais textos com esse tipo de abordagem.

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  3. Todos os posts do #TezukaDay parecem estar arrebentando. Esse não é exceção.

    Gostei muito, mas achei que faltou um pouco mais de aprofundamento do mangá. O post ficou bom, e objetivo, mas faltou discutir algumas outras questões e aprofundar no universo em questão.
    Leve como uma crítica construtiva.

    Mas mesmo assim o post está ótimo :)

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  4. Gostei muito do post! Achei a análise ótima.
    Dororo é um mangá dele que eu não conhecia, sabia da publicação brasileira mas não sabia nada sobre o enredo. Achei legal o mangá não levar o nome do Hyakkimaru (até por Dororo soar bem melhor, ser mais fácil de pronunciar e guardar, etc), que pelo que entendi, é o grande protagonista e quem dá ritmo para a obra.
    Não sou muito interessado pela abordagem que os shonens fazem sobre amizade, mas fiquei curioso para ver como o Tezuka trata esse tema!

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  5. Dodoro é uma das mais legais obras de Tezuka, e apesar de ter envelhecido um tanto, ainda é uma leitura muito dinámica que junto de a Ribon no kishi e Jungle King faz parte do melhor da obra infanto-juvenil do autor.
    Eu particularmente gosto muito desta obra e tenho o primeiro volume, agora me animei a comprar o resto.
    E já ia me esquecendo, grande texto .

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  6. Muito bom ler sobre uma obra do Tezuka que já tenha sido lançada aqui no Brasil. A coisa fica bem mais proveitosa já que não precisarei correr para scans (na verdade eu nem recorreria a scans #preguiça). O texto tá ótimo e a escolha sobre esta obra tão jovem do Tezuka bate muito com o autor desta resenha ^^. Curti.

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  7. Gostei muito da resenha. Me interesso muito pelos mangás do Tezuka, principalmente por conhecer poucos.

    Dororo me pareceu interessante desde anunciaram. Espero um dia comprar e dar uma conferida.

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